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Ubaldo, o paranóico

Esse personagem de Henfil foi criado no ano de 1975 com a colaboração do jornalista Tárik de Souza, e tinha como objetivo responder a situação atual do governo ditatorial, o processo chamado de “abertura política”, que não mostrava claramente essa intenção, pois a perseguição política continuava, representada principalmente pela morte do jornalista Vladimir Herzog.

Ubaldo é o retrato do estudante militante e engajado politicamente, com cabelos e barba cumpridos, roupa folgada, um perfil meio hippie, e a mochila sempre às costas. “Medo” é um sentimento inato na vida de Ubaldo, ele desconfia de tudo e de todos, e sempre que lhe é dirigido a palavra ele sai correndo e gritando frases desordenadas e sem sentido para os outros personagens da charge.

Afinal, a melhor forma de caracterizá-lo é com o complemento do seu nome “o paranóico”, isso não há dúvidas, o perigo existia, mas não nas proporções que Ubaldo a enxergava, para ele uma simples pergunta casual já era definido como perseguição e uma possível tortura seguida de morte.


Nessa tirinha percebemos claramente o comportamento de Ubaldo. Uma mulher chega e pergunta se ele conhece o João do 2º Ano, ele diz que sim e indica a pessoa normalmente, até então sem problema algum, uma pessoa foi na escola procurando por alguém e pediu informações. Mas então bate a paranóia dele, uma pessoa desconhecida pedindo informação? Só poderia ser uma pessoa ligada ao regime militar segundo o raciocínio de Ubaldo. Não importa se ele não tinha nada a ver com movimentos de esquerda ou socialismo, não importa também se João fazia parte, os dois provavelmente não tinham envolvimento com a oposição, porém o medo do opressor, a paranóia se torna maior e mais forte que a própria lógica, mais racional que a razão. No regime militar, a opressão está sempre atrás de você, por todos os lados, era exatamente isso que Ubaldo pensava.

O último ponto é que em nenhum momento nas tirinhas de Ubaldo aparece um militar opressor, ou seja, a opressão está sempre na cabeça dele, talvez seja por isso que Ubaldo não fora censurado, pode ter sido uma estratégia do Henfil, pois um personagem tão cômico e com pouca crítica explícita revelada, dificilmente seria banido pela opressão da ditadura militar.

 
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